Sonhófago.

A torre de Pisa era bonita, ficava melhor quando tinha ao seu fundo a muralha da China.
Paola Oliveira completava o cenário.

Virando-se para o outro lado tentava intensamente mas não conseguia escolher qual foto do Paulo Zulu era a melhor.

As pontas dos dedos farejavam com ventosas cada um dos objetos ao redor. 
As longas e pontudas orelhas giravam a partir de cada um dos cotovelos, ombros, costas e nuca.
Ligavam-se a qualquer suspiro de amor ou aceleração de respiração.

A sétima orelha captou o sinal.
O sorriso gigante cheio de dentes, amarelos de ouro abriu-se de uma ponta a outra da careta.

Estendeu os braços de onde saiu uma pele fina, nojenta e enegrecida que lhe permitia planar com o calor dos corpos humanos. Cada um de nós exalava o necessário para que ele nunca estivesse parado. 

Achou seu alvo, estava sentado a frente do computador da firma, tinha aberto na tela a página da faculdade particular. Sempre sonhara em ser enfermeiro, tentara seis vezes Enem, nunca conseguiu chegar nem perto. Com a promoção que tinha acabado de receber achava que agora era a hora, ia dar certo.

Do meio da face, de dentro de um orifício triangular no centro da testa saiu um cano finíssimo e torto. Acertou o centro da testa do homem.
Sugou-lhe o sonho. 
Tomou 90% daquele líquido preciso.
A verde gosma ele abandonou. 
Alimentava-se de desejos. 
Abandonava a esperança.
Uma ou outra vez cometia o erro de saborear tanto o sonho que sugava partes da esperança.
Eles nunca resistiam, normalmente se matavam. Com o pouco que sobrava no máximo acreditavam que ao se matar tudo estaria melhor...
Preferia evitar esses excessos.
Pessoas com esperanças sonham mais.
E acabam resistindo mais ao sofrimento.
Alimentava-se do sonho.
Deixava-lhes a esperança.

Não porque não gostasse, mas porque a esperança era no fim, o raiz de todo o bem e de todo mal.  

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