Michaellysson

"Ave Maria cheia de ..." PRA!!!! O som do jarro quebrando fez com que a velha tivesse um sobressalto e engolisse as últimas palavras junto das lágrimas que agora caiam pesadas dos olhos enrugados e escorriam pela pele flácida.
- Puta que pariu!!!! Vocês me odeiam nessa casa! Falou Joana com a voz forte de quem ainda tinha todos os cabelos negros como pena de graúna e garganta firme como corda de violino. Mas era possível perceber lá no fundo um arranhado rouco provocado pelo excesso de cigarros. - Porra! Cadê a bolsa velha???!!!
O choro das crianças fazia a trilha sonora perfeita para a cena de desestruturação que transcorria. Das cinco crianças da casa, apenas Michaellysson chorava em silêncio. O garoto de nove anos chorava não por medo da mãe. Não a considerava mais nada além de uma intrusa. Chorava de ódio. Queria fazer a dor de sua verdadeira mãe, a avó, parar.
Joana avançou com todas as forças para cima da velha.
- Bora vaca, cadê?! Três tapas e dois chutes acertaram em cheio o corpo da velha que se encolhia em estado fetal. Arrancando a televisão da mesa improvisada como hack jogou-a sobre a cristaleira que sobrevivia com as xícaras da mãe de dona Silda. Puxando o fio da tevê Joana começou a dar uma surra na velha. Cuspindo sangue a septuagenária apontou para o pote de café. Joana em três passos largos chegou a cozinha.
Os olhos turvos de ódio e de abstinência não acreditaram no projeto de gente com os braços abertos na frente do pote. 
- Você não vai fazer isso! A gente já cansou de passar fome por sua culpa. Você não vai mexer no salário da vovó!
Ainda meio atônita Joana tentou afastar o garoto com o braço. Ele resistiu. Ela enfiou-lhe a mão na cara. Ele mordeu a mão dela. Escorreu sangue. Ela pegou uma faca e o furou. 19 vezes. Por meio segundo o silêncio predominou. Depois os gritos de desespero encheram a noite. Joana saiu para comprar um pouco mais.   

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