Calor

Era mais uma noite quente, maldita e abafada. Parecia que o céu havia descido e apertava a terra com um ar quente que só podia prenunciar a qualquer desavisado que ali era uma terra tocada pela mão do diabo.

Lucas pingava dentro de sua bata amarelada de suor; ela já fora branca, e não havia muito tempo, qualquer um que chegasse a vila o encontraria limpo e cheiroso, com o cabelo exalando um perfume de brilhantina e a roupa com um leve odor de ovo que usava para passar as vestes e deixa-las brilhando. Mas hoje não havia nada disso, só o calor e o medo.

Era o quinto enterro que acompanhava no mesmo dia, e o maldito dia ainda não acabara. E mesmo quando acabava, teimava em se repetir, levando sempre cinco, seis, até mesmo dez.
Pela quinta vez, ele que nem sabia mais se acreditava ou não em um Deus era arrastado a consolar uma família moribunda que pranteava de olhos rubros a partida de mais um. Apenas rubros, pois não tinham mais aguá para derramar de seus corpos igualmente secos e moribundos. E talvez nem dessem um adeus, mas um até logo.
A casa fedia, fedia a fezes e vômito, era uma poça imunda e infecta de dejetos de escorriam de corpos esqueléticos e frágeis, fracos como galhos de uma árvore seca. Olhava aquelas aberrações e sabia, bastaria que ele fizesse um segundo de esforço e eles se quebrariam. Era isso mesmo que eram, todos ali: secos. Corpos e suas almas. Naquela noite não havia consolo para eles, nem lágrimas, só dor.

E lá ia Lucas assistindo a mais uma passagem, horrível passagem, não havia nada daquilo que lhe ensinaram nas aulas de catecismo, não parecia que a virgem santíssima vinha buscar a alma de seus fies filhos que durante anos lutaram na irmandade da penha. Catarina que era a grã-mestra da irmandade morrera com um grito agudo que cortara a alma do douto. Os olhos dela pareciam contemplar o além, e este não podia ser nada bom, pois defecara-se pela última vez, soltando um cheiro acre e um líquido entre o marrom e o amarelo. Tinha que sair dalí.

Que se explodam todos, ele fizera mais do que o suficiente, tentara sangrias, clísteres, vapores e infusões, mas nada parecia amenizar a doença, precisava fugir dali, não sabia o que fazer, mas precisava sair, correr, sentir de novo um rastro de vento em sua pele. Parara arfando no meio da praça. Para onde iria?....


Não sabia o que fazer.

Foram mais de oito anos na capital do império, entre corpos dessecados, aulas massantes e cabarés lotados. Era de uma casta superior em meio aos de casta superior. Era parte da elite econômica e simbólica do país. Voltara doutor, mas de que isso lhe adiantava.

Sentiu o calor percorrer-lhe as calças. Uma pontada aguda doera-lhe no abdomêm e subia, ardendo, como que rasgando cada pedaço de seu corpo e de sua confiança.
Vomitara.

Sabia que era o fim.

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