Roberto ou O escritor ou Aquele cara lá.

Nunca fora nada.

Não era alto, nem baixo. Um pouco mais gordinho que o normal, mas nada que chama-se a atenção.
Nunca se destacara nos esportes, nem nas disciplinas da escola.

Não sei se como forma de proteção sempre se achara superior aos colegas de escola. Apenas Cláudia fazia ele voltar para a realidade. Mas na verdade, nunca fora real. Ela era a mais bonita da escola e o caso entre os dois só fora real na ficção.

E assim foi durante toda a vida escolar, ele e seu caderno, onde anotava de tudo, todas as suas experiências, poemas, devaneios que lhe ocupavam a mente.

Até que conheceu Luiza. Ela não era nem alta, nem baixa, nem gorda, nem magra. Na verdade, tinham estudado juntos durante três anos, mas nunca haviam se visto.

Ela o chamou pra sair. Ele relutou, ela não era Claudia. Mas foi.

Se apaixonaram, tudo dera certo. Ele vira Luz. Era assim que chamava ela.

Algum tempo depois, várias confidências e lágrimas também haviam se passado e ela conheceu seu lado mais escuro, e o caderno dele também. Leu. Gostou. O pai dela tinha uma editora. Publicaram.

Ele fez sucesso, todos queriam conhecer o cara que não era ninguém e que por isso era muito parecido com todo mundo.

Lançamentos, festas, bebidas,... mulheres, mulheres e mais mulheres.
Enfim era visível, enfim milhões de Cláudias olhavam para ele.

Luiza se foi.

E vieram, Cláudias e mais Cláudias.
Mas algo começou a parecer errado, fora do lugar.

Ele estava ali, mas elas não o viam. Quem realmente o via não estava mais ali.

Não suportava mais o cheiro doce, os cabelos alisados, as sobrancelhas arqueadas, as pernas torneadas. Não merecia aquilo, perdera a luz... Perdera Luz. Não sentia mais prazer.

Começou a se descuidar. Um dia dentro de casa socara tanto a parede que os dedos sangraram e... gozara.

Só tinha prazer quando se punia.

Passou a frequentar clubes de sadomasoquismo. Gostava de ser dominado. Voltava de noite, com as costas em carne viva, com tufos de cabelo arrancado e hematomas por todo o corpo. Exausto.
Mesmo assim, tudo continuava escuro. Precisava de mais.

E lá estava, dentro de um saco de couro, suado, sentindo a respiração cada vez mais difícil, com o corpo melado de todos os excrementos que seu corpo expelira naquela mistura de dor e prazer.

E imundo, dormente, vira a luz.


.
.
.

Quando o legista abriu com tesouradas certeiras e duas doses de asco o saco de couro, lá estava, novamente o sorriso.
O escritor fora notícia. Todos o viram; sem ver.

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

"A beleza do morto"

A demasia do excesso.

Sabedoria canina