A mudinha

No meio daquele mundo de verde, de sol a pino e sono descansado saiu pra caminhar. Foi alí, no meio do mar verde, onde brotavam um conjunto de pedras escutou o chorar baixinho. Procurou até encontrar a origem daquele lamento tão frágil. Não foi surpresa alguma quando viu que vinha daqueles galinhos tão fininhos e mal tratados.
Não precisou de muito esforço para entender, ela tinha sede, ela queria ser grande, ela queria crescer forte e frondosa, mas as pedras que se por um lado eram-lhe a casa, por outro lhe secavam o futuro.
Amou-a desde o primeiro momento e a cada dia levava um balde com água, duas ou três horas de conversa e uma grande dose de fé.
Cansou de ouvir as risadas pelas costas que o tinham como louco. Preferia fingir que não era consigo. Tinha mais o que fazer, tinha uma vida pra cuidar.
Todos os dias ela o recebia com o mesmo sorriso meio triste, acanhada agradecia cada gota recebida e sempre, como um relógio cuco ao meio dia, quando o homem virava para ir embora ela falava, no início baixinho, mas com o tempo com cada vez mais força: - Queria ter frutos para lhe oferecer, querer ter uma sombra pra lhe confortar. E como sempre ele respondia: - não importa, quero-vos bem, assim como és. 

Era uma tarde como todas as outras, depois de buscar a comida na mercearia do vilarejo, lavar o chiqueiro dos porcos, ordenhar a Judite e Vanderleia e botar o de comer para o Dólar e o Real, saiu munido do balde cumprir o ritual diário. Ao longe viu a bela copa, ao meio caminho sentiu o cheiro das frutas, ao perto, ouviu o farfalhar do vento beijando as folhas, até ele se rendera a beleza dela. 
Aproximou-se com o mesmo assovio de sempre. Ao invés de uma risada baixinha ouviu a voz forte lhe dizer: - Boa tarde. 
- Boa tarde minha mudinha que bonita você ficou. 
- Sim, fiquei. 
- Vim lhe deixar a água e botar o papo em dia. 
- Vá embora daqui, não vê que atrapalhas meu destino? Sou grande e bela, meu fruto é apetitoso como nenhum outro ao seu redor, não posso ser de um capataz, é absurdo.

Passaram-se dias até que o senhor a visse, e todos os dias ele ia para baixo dela ouvir histórias a sombra e comer de seus saborosos frutos... Ele, buscava comida, ordenhava, lavava, alimentava e sentia... 


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