Una

Acuada em um canto da sala, os olhos fechados e o corpo retorcido eram a prova da dor e do medo que a acompanhavam. A pele alva como pelo de ovelha de sacrifício ia sendo manchada pelo vermelho escuro do sangue que lhe escorria do peito e do pescoço. Feridas impostas pela traição e que ardiam inflamadas provocando uma febre obscura que a fazia temer por novos golpes.
Aninhava o próprio corpo em um pedaço tão pequeno de chão que mal tocava o piso frio da casa que se tornava cada vez maior pelas ausências recentes.
Por dentro de si sonhava um sonho torpe e febril onde revisitava cada momento de dor, e a cada instante revia o olhar daqueles demônios cortando-lhe o ar. A cada rosto virado e cara de desprezo fazia com que do plano etéreo surgissem pedras que na velocidade de um piscar atingiam-lhe com força e sempre deixavam o saldo de algum pedaço de osso lascado ou quebrado. Depois vieram as navalhas que lhe perfuraram a carne... Por fim as correntes, diziam que era pra seu bem, que precisava delas para ser feliz. A voz lhe dizia ao prender cada um dos sete grilhões: - Boa menina... boa menina. Por um milionésimo de segundo sentia-se feliz e radiante para logo em seguida sentir um vazio, como se alguém dentro de si disse-se, esse não é seu lugar, esses não são seus grilhões.

A respiração mais frágil que de pássaro novo foi ficando cada vez mais forte e ao mesmo tempo mais alta. O peito inerte começava a bater com cada vez mais intensidade. Excreções escorreram-lhe pelas narinas. Ouvia o ronronado e sabia que precisava ficar de pé. Os tambores do coração tocavam uma música que precisava ser dançada. Todo o chão ao seu redor ficou escarlate quando todas as feridas se abriram ao mesmo na hora que ficou de pé, Ergia-se em meio a uma poça de sangue, suor, muco, excrementos e lágrimas... Não precisava mais se lamber, não deveria mais se acuar. O corpo fragilizado pela prisão quase não conseguiu manter-se em pé, mas sentiu que não estava mais sozinha, os tambores invocavam a fera que nascera para ser, não podia mais permanecer, não podia mais aceitar, não podia mais se acanhar, não podia... não podia!

As correntes partiram-se em uma miríade de pedaços que fez com que todo o céu ficasse recoberto de fragmentos brilhantes. Livre. Correu. Corria com a intensidade de um amanhã, ele não pede pra chegar, simplesmente chega, sem hesitação, sem perguntar, é a sua natureza, é a verdade, é e pronto.
Suas pernas iam ganhando substância a cada passada. Os tambores tornavam-se cada vez mais frenéticos. Coreu mundos inteiros movida pela força da realidade. E com a repentina intensidade de um beija-flor parou.
A música silenciou. Sentiu-se estranhamente preenchida. Esperava que ao silenciarem os tons estaria vazia, mas pelo contrário, sentia-se forte, sentia-se viva. Lentamente a brisa passou a beijar-lhe cada centímetro do corpo, sentia a terra esfregando-se na planta dos pés. E tudo foi natural. Os pés fincaram-se, os braços floriram, o corpo estava forte e seguro. Uma hora os pássaros vieram e logo se foram e num piscar de olhos cinco, seis gerações se passaram mas para ela tudo não passara de uma respiração. Fora Julian, Alejandro, Satine, Capitu... Fora milhares e ao mesmo tempo não deixara de ser ela mesma.  Estava em sintonia. Era uma com a criação. Era e seria. Nascera para ser, desde todo o sempre até o fim. E era ali que estaria.      

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