A tatuagem feita há menos de uma semana ainda estava com a cor vem viva e a pele ao redor um pouquinho avermelhada. Vinha cuidando muito bem dela, creme de cicatrização e hidratante. Evitava poeira e sol por seis dias, mas agora era a hora. Com um biquininho vermelho de laço na lateral foi até a beira da água. Estrategicamente levantou o cabelo com as duas mãos pela parte de trás, mas deixando um rabo de cavalo grandão adornando-a, assim como os penachos adornavam os grande generais romanos. A amiga, devidamente posicionada de modo a pegar, com o iPhone X refém comprado, o mar, a areia, um pouco do brilho do sol que vinha da direita, mas principalmente a lateral das costelas dela evidenciando o texto: "aproveite o momento". Foram 26 fotos até chegar na que Boa considerou perfeita. Agora, com o coração palpitando, postou no Instagram. Avisou nos histories e no status do WhatsApp: tem foto nova, curte lá.
Hoje eu acordei e meu primeiro pensamento foi você... Você me pergunta se está tudo bem, e com os olhos marejados e o nariz avermelhado eu lhe digo que sim com a cabeça, mas você sabe a verdade... Não está. Está tudo uma bagunça, mesmo parecendo estar tudo em ordem. Sinto-me só, porque no meio da multidão não tem você. No movimento automático de pegar o celular procurando por histórias que me façam passar o tempo, falta o seu sorriso. Sinto saudades... Saudade de tanta coisa, de tanto sentimento, de tanto eu. De tanto eu como você. O mais louco de tudo é ter saudade de um passado que nunca passou de nada além de uma projeção de um futuro que poderia ter sido mas nunca foi. Mesmo assim, foi mais verdadeiro que a maioria das verdades, que a maioria dos corpos, dos abraços, dos beijos. Nunca fomos, mas você sempre foi. Parou por dois segundos... Pensou um pouco. O pol...
Eram os atestados de sua autonomia. Alegrara-se com cada um que chegava. Teve um tempo em que eles simbolizavam uma independência que tinha procurado por um bom tempo. Enquanto adolescente não contava às vezes que ouvira: se quer ser livre, pague suas contas. O primeiro boleto parecia uma carta de alforria. Eles seguiram vindo. Às vezes maiores, às vezes menores. Por vezes ficava feliz com o que lia, por trás dos números estavam a viagem, o carro, as alianças, o cimento... Logo viraram o arroz, o macarrão, o sabão em pó,... Não muito depois, as fraldas, o leite... Passava a temer a chegada de cada um deles. Paulatinamente foi se dando conta que a cada um que chegava, fechava ao redor dele mais uma barra da gaiola. Os números o impediam do voar. A autonomia era asfixiante.
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