Vaidade das vaidades.

Ah, como sofro.
Em meu humilde e miserável involucro cedido pelo senhor da criação vou sendo a cada dia tomado por mais e mais enfermidades.
Sou tão frágil e fraco.
A cada segundo desfaleço-me em suplícios não impostos ou não escolhidos.
Padeço ante as agruras que são colocadas ante a mim.
Poderia simplesmente negar-me a sofrer.
Sim, sei que poderia.
Sei que Deus se apiedaria de mim.
Afinal, sou tão bom, correto e justo.
Sou cheio de amor e temor a Ele.
Bastaria um clamor desse pobre servo e Ele me escutaria.
Se a ovelha reconhece a voz do pastor, o pastor também conhece o balido de sua ovelha, quanto mais de sua ovelha preferida. 
E qual não falaria mais próximo do ouvido do Senhor quanto eu?
Assim como João, aquele que Cristo mais amava, eu também sei que me reclinaria sob Seu peito e confidenciaria aos sussurros verdades e Ele me falaria das coisas do alto.
Saberia ele que em meio a meu sofrimento nunca deixei de abalar em mim a certeza de que um dia verei Sua glória.
Sou um nada. Um verme que rasteja por esse vale de lágrimas e de sofrimentos.
Mas sou Dele e Ele é meu, por isso, sei que não sou como todos estes que estão ao meu redor.
Estou no mundo, mas não sou do mundo.
Sofro, sou pobre, faço sacrifícios e jejum.
Sou o mais humilde entre os humilhados.
Sou o servo no meio dos servidores.
Escolho ser sempre o último.
Sempre fico além de todos enquanto os joelhos desacostumados a genuflexão reclamam por suas orgulhosas calças caras, permaneço sempre um pouco mais. Pois sempre terei 5% a mais para dar a Ele.
Sou o último dos últimos.
Não sou como todos esses outros pecadores. Não sou como a Carla que tem uma vida promiscua. Não sou como o Tadeu que é um afeminado. Não sou hipócrita como a minha mãe que reza tanto, mas que não sofre como eu. Não sou como aqueles homens e mulheres que vão todos sujos pra dentro da igreja. Não sou como o mundo. Não tenho vaidade alguma. Nada me causa orgulho nenhum. Não me sinto melhor do que ninguém. Sou o menor de todos que existem ou que já existiram.



Terminada a oração Roberto quase não conseguia se levantar. Alguma coisa lhe pesava bastante no centro do peito. Parecia que estava cheio de alguma coisa, só não sabia dizer o que era. 

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